Programa

1 - PROCESSO CRIADOR / CORPO SEM ÓRGÃOS

Mauro Sá Rego Costa
Professor Associado na FEBF/UERJ (aposentado). Professor da Pós-graduação da Faculdade de Dança Angel Vianna. Pesquisador nas áreas de Rádio Arte/Rádio Experimental e Dança Contemporânea. Autor de Rádio, Arte e Política, EdUERJ, Rio de Janeiro, 2013.

Ementa
Antonin Artaud e o Corpo sem Órgãos / A apropriação Deleuze-Guattariana em Como criar para si um Corpo sem Órgãos / Artaud, os Tarahumara – Tonal e Nagual / Não existe Meu Corpo sem Órgãos, o Corpo sem Órgãos é impessoal e assubjetivo / O Corpo sem Órgãos individual e coletivo – organismos e órgãos públicos x forças e modos de desorganizar / alguns estudos de caso: Dança Contemporânea, Terapia através da Dança e Rádio Arte.


2 - DELEUZE / CINEMA

Ruy Gardnier
Crítico de cinema e pesquisador. Fundador das revistas eletrônicas Contracampo e Camarilha dos Quatro, professor na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Curador de mostras de cinema (Rogério Sganzerla, Julio Bressane, Cinema Brasileiro Anos 90) e editor dos catálogos das retrospectivas dos cineastas John Ford, Samuell Fuller e Abel Ferrara, entre outros. Formado em jornalismo pela ECO/UFRJ. Trabalha como pesquisador do acervo audiovisual do Circo Voador.

EMENTA
Entre 1983 e 1985 Gilles Deleuze lança em dois tomos seu grande livro sobre cinema, subtitulando-os "Imagem-Movimento" e "Imagem-Tempo". É um livro que incorpora boa parte das discussões acerca da história do cinema, de sua linguagem e das teorizações acerca do "específico fílmico", propondo novas teses e rearranjos na organização do saber cinematográfico. Mas é também um livro que utiliza o cinema para indagar a filosofia, e conjuntamente com as teorias de movimento e tempo do filósofo francês Henri Bergson e com a "teoria geral dos signos" criada pelo filósofo americano Charles Sanders Peirce, Deleuze utilizará o aporte teórico de críticos, historiadores e dos próprios cineastas para discutir imagens que pensam e pensamentos que são imagem, curto-circuitando esses dois regimes de saber de maneira brilhante. O curso discutirá os pontos mais cruciais dos dois tomos da obra, articulando o acompanhamento teórico com exibição de trechos de filmes-chave e problematizações acerca da linguagem de cinema:

1. Uma nova concepção da ontologia do cinema; a linguagem cinematográfica (quadro, plano, planificação, montagem); a imagem-movimento

2. Os três constituintes da imagem-movimento: percepção, afecção, ação; a crise da imagem-ação

3. A instauração da imagem-tempo: situações ópticas e sonoras puras; a imagem-cristal

4. Os cinemas da potência do falso e das camadas de tempo; o cinema do cérebro.

3 - LITERATURA E VIDA / ESCRITA E CORPO

Ana Kiffer
Professora do Programa de Pós-Graduação em Letras da PUC Rio. Doutora em Letras / Literatura Comparada pela UERJ (2002), estágio doutoral na Université de Paris 7 (1998/1999), e tese sobre o escritor francês Antonin Artaud.

AULAS 1 / 2 – LITERATURA E VIDA - Vamos recolocar essa relação (não relacional) posta por Deleuze buscando atualizá-la, e convocado a pensar dois grandes eixos que perpassam o literário e ainda hoje, quais sejam: o pessoal e o impessoal. A vida vista como acervo de experiências vividas e rememoradas e a vida vista como invivível, esquecimento e fuga. A escrita vista como tarefa dessa rememoração que de algum modo cria molduras, limites, significados numa linha temporal cronológica e a escrita como experiência que nos joga para outra linha, não necessariamente cronológica, que decerto acessa blocos da infância, mas ainda assim resistentes à significação.

AULAS 3 / 4 – ESCRITA E CORPO - Se o estilo teria sido visto inicialmente por Barthes, entre outros, como a inscrição do corpo do escritor sobre sua escrita, Deleuze e Guattari serão categóricos em repensar sob o fundo corporal uma série de incorporais, ou, dito de outro modo, sob a forma corpo um corpo sem órgãos intensivo e desorganizador da máquina anatômica e linguística. Não há como se aproximar das experiências artísticas contemporâneas sem tocar nessa passagem por onde tudo conflui e reflui ao mesmo tempo, esse corpo contágio entre membro e sílaba que acomete as séries poéticos, sonoras e plásticas de Artaud, desfazendo o modelo homem branco ocidental logo ao final da Segunda Grande Guerra. Qual a sua potência ainda hoje?

4 - "PENSAMENTO-MÚSICA": DELEUZE/GUATTARI E A MÚSICA EM MIL PLATÔS

Bernardo Carvalho Oliveira
Professor adjunto da Faculdade de Educação da UFRJ, pesquisador, crítico de música e produtor.

SINOPSE
É notório que os filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari desenvolveram uma operação pregnante entre música e pensamento, a partir de dois movimentos simultâneos e complementares: uma reflexão sobre o som; e a apropriação criativa do pensamento de compositores do século XX. Ao incorporar temas e conceitos oriundos do pensamento musical, Deleuze e Guattari não pensaram, nem escreveram "sobre" a música, mas desenvolveram um "pensamento-música", calcado na multiplicidade simultânea de perspectivas que o som nos convoca a atender.

Para Deleuze, Pierre Boulez é um autor fundamental ao desenvolver um pensamento original sobre o tempo musical, centrado nas noções de tempo e espaço liso e estriado. Por sua vez, Guattari afirma que a linguagem, enquanto articuladora dos regimes de poder, são "um conjunto de som arbitrariamente selecionado na gama de possibilidades, e cada falante desta língua deve aprender a arbitrariedade específica que caracteriza a ordem social sobre a qual deposita seu ser no mundo."

Na "Platô" 10, os autores afirmam, acerca da música do século XX: "é como se a idade dos insetos tivesse substituído o reino dos pássaros, com vibrações, estridulações, rangidos, zumbidos, estalidos, arranhões, fricções muito mais moleculares." Com isso, não anunciam simplesmente uma nova era da composição musical, mas a possibilidade de pensar as relações entre "som" e "música" não mais em termos objetivos, circunscritos à tríade matéria-forma. A escuta desenvolve-se não mais como encadeamento de ideias e narrativa linear, e passa a se exprimir como "intensidades", "densidades" e "velocidades".

D&G realizam, assim, um duplo movimento: fazem ressoar no interior da filosofia, conceitos e ideias elaborados por compositores em relação pragmática e experimental com sua arte (Boulez, Cage, Messiaen, etc); a partir deste percurso, reouvir, reescutar toda música não mais como produto das noções dualistas de "forma" e "conteúdo", mas a partir daquilo que D&G chamam de "as forças" e "os materiais". Por fim, uma análise das "escutas contemporâneas", quando a noção de "escuta" pode ser desdobrada em outra, a de imersão, operada por um autor contemporâneo influenciado por D&G, Joseph Nechvatal.

CRONOGRAMA
Primeiro dia: "Música cósmica" — O Problema da Forma Musical I
Segundo dia: "Música cósmica" — O Problema da Forma Musical II
Terceiro dia: "O Ritornelo" — O Problema do Tempo Musical I
Quarto dia: "O Ritornelo" — O Problema do Tempo Musical II
Quinto dia: "Immersion into Noise" — Arte, Política, Ruído